
A ciência deu-nos os fertilizantes,
Hormonas, fármacos bastantes
Para encararmos a fartura como nada.
No mundo em que já só os olhos comem,
Em que os esfomeados se escondem,
As cascas têm o domínio:
Noutro tempo, dos porcos eram repasto,
Essas, restos - nem pasto!
O que será que se inverteu?
Num mundo de epicarpos vistosos,
Se deixam mesocarpos saudosos,
Confusos e sem esperança.
Qual será a utilidade
De viver a sua eternidade
Guardando a semente?
Será que a semente vivente,
Terá um futuro diferente?
Ou verá a luz para ser casca?
O que se terá invertido?
O palato do bicho servido
Ou o lugar das coisas?
Eu cá não sou esquisito,
Nem temente, nem erudito.
Mas tenho a minha convicção.
Evito, quando a fruta me é acessível,
Sujeitar-me a uma morte, sem nível,
De ilusão de saciação.
Dêem-me fruta feia e desinteressante!
Fruta pequena, sem charme, nem picante!
Dêem-me Gente!
Dêem-me gente real, daquela que sente!
Da que partilha, da que constrói! Gente!
Sem querer ser exigente, mostrem-me Gente!
Seres que não prefiram dar aos sentidos,
Enquanto se matam, subnutridos.
Não só casca! Gente!
Sem comentários:
Enviar um comentário