terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Olhos gástricos

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A ciência deu-nos os fertilizantes,
Hormonas, fármacos bastantes
Para encararmos a fartura como nada.

No mundo em que já só os olhos comem,
Em que os esfomeados se escondem,
As cascas têm o domínio:

Noutro tempo, dos porcos eram repasto,
Essas, restos - nem pasto!
O que será que se inverteu?

Num mundo de epicarpos vistosos,
Se deixam mesocarpos saudosos,
Confusos e sem esperança.

Qual será a utilidade
De viver a sua eternidade
Guardando a semente?

Será que a semente vivente,
Terá um futuro diferente?
Ou verá a luz para ser casca?

O que se terá invertido?
O palato do bicho servido
Ou o lugar das coisas?

Eu cá não sou esquisito,
Nem temente, nem erudito.
Mas tenho a minha convicção.

Evito, quando a fruta me é acessível,
Sujeitar-me a uma morte, sem nível,
De ilusão de saciação.

Dêem-me fruta feia e desinteressante!
Fruta pequena, sem charme, nem picante!
Dêem-me Gente!

Dêem-me gente real, daquela que sente!
Da que partilha, da que constrói! Gente!
Sem querer ser exigente, mostrem-me Gente!

Seres que não prefiram dar aos sentidos,
Enquanto se matam, subnutridos.
Não só casca! Gente!

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