sábado, 25 de abril de 2026

Abril a Alma

De março vieste derrotada,
Com tremendo peso e algemas.
Tremendo e de peito frio, furado, que adota
As, de outros, dores e penas.

Teus peitos chupados pelo ego
De tiranos, ignorantes que há,
Secaram para o que te entrego.
Não há mais leite por cá.

Março avança para a primavera,
A dor agudiza, sufoca além de ti.
Viria um praça que te dera
O que não vias, mas eu vi.

Convalescença de parte tua,
Liberdade que de ti nasceu.
Deu-te o tempo para, nua,
Sonhares um não-passado teu.

Abril, mês de heróis, trazia na algibeira 
O silêncio calado da verdade.
Reacendeu-se a fogueira
Na reunião daquela tarde.

O praça, viu-se capitão.
Cheirou ditador além dos já vistos.
Pela mátria quis que não,
Não amamentasses anjos mistos.

Em abril, abri-te a alma
Já sussurrava a revolução.
Mas depois da tarde calma,
Veio a conspiração.

Fotografia vazada,
Denunciou o caminho
Deu a rota desenhada
Ao ditadorzinho.

A revolução não teve travão,
Os cravos foram à rua.
Veio progresso, veio o perdão,
Veio liberdade, mas não tua.

Passado Abril há vitória,
Há melhoria, há futuro.
Mas ainda há um ditador em glória 
Que verás ao descer do muro.




quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Último Feitiço

"Tu não me podes dar o que eu preciso."
Último feitiço que me lançaram.
É magia que me deu prejuízo.
Mas ficou, nos tempos que passaram.

Não vale a pena conhecer a história.
É uma, como tantas outras que há.
De heróis que cavalgam a glória
Porque ninguém os combaterá.

Guerreiros que ferem a própria sombra,
Julgando trata-se do inimigo.
Dos que tecem a própria alfombra
Para cortejo do seu umbigo.

Rodeados de "gente insuficiente",
Não sei como podem resistir.
É complexa a vida da gente
Que só é gente, sem assumir.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Coágulo Poético

A fonte via-se seca.
Cântaros cantavam a sede.
Nos cantos a dor que disseca
O fatal salto e a não-rede.

Partiste-te, seco canteiro,
Cantadeiro vazio de fé:
Escudeiro da espera e herdeiro
Do que foi "será" e não é.

Desta bica, antes molhada,
Não sai vento, não sai deserto.
Não há vazio neste aperto
Há, sim, um sinal na estrada.

Quem é o senhor deste sinal?
Será, certamente, senhor da estrada.
Se a estrada é minha, afinal,
Fui sinaleiro da longa estada.

Acampei, por mim detido.
Nesta estrada fui barreira.
Não quis escutar o ouvido,
Nem a minha voz verdadeira.

Coágulo da fonte que escreve,
Que canta medos e dores.
Salto e solto quem me deve.
Há novos versos e calores.

Água que tornas a correr,
Sê água, sem mais tentar.
Sê água sem ser mulher.
Sê água, sou terra e ar.